sexta-feira, 26 de abril de 2013

EDUCAÇÃO



ESTADOS E MUNICÍPIOS PODEM PERDER RECURSOS FEDERAIS

Transporte escolar - Região Ribeirinha de Macapá




O alerta vem do Ministério da Educação (MEC) às secretarias estaduais e municipais de educação de todo país. Os entes federativos que não prestarem conta dos programas de alimentação escolar (PNAE), transporte escolar (PNATE) e Dinheiro Direto na Escola (PDDE), até o próximo dia 30 de abril, poderão ter seus recursos federais bloqueados.
Segundo dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), muitas prefeituras e governos estaduais ainda estão devendo as prestações de contas do ano de 2011. Até a manhã do último dia 22, faltavam 980 municípios e o Distrito Federal enviarem suas informações refere ao PNATE. No estado do Amapá, os municípios de Macapá, Pracúuba, Santana e Vitória do Jari estavam na lista dos municípios pendentes. Quanto ao Programa de Alimentação Escolar, a situação é ainda mais preocupante, 1.447 prefeituras, onze estados e mais o Distrito Federal estavam irregulares. Os municípios amapaenses que estão nesta situação são: Amapá, Macapá, Pracuúba, Santana, Vitória do Jari, Serra do Navio, Cutias, Oiapoque e Tartarugalzinho.
No caso das prestações de conta do ano de 2012, no que se refere ao PNAE, nenhum estado, incluindo o Distrito Federal, e mais 3.665 municípios ainda não haviam encaminhado os dados ao FNDE. No Amapá, apenas os municípios de Calçoene, Porto Grande, Ferreira Gomes e Pedra Branca não estão na lista de pendências. Com relação ao PNATE, oito estados e mais 3.610 municípios ainda precisam encaminhar seus dados até o final do mês. No estado, os municípios de Amapá, Macapá, Mazagão, Porto Grande, Pracuúba, Santana, Tartarugalzinho e Vitória do Jarí estão nesta situação.
As prestações de conta deverão ser enviadas online por meio do Sistema de Gestão de Prestação de Contas (SIGPC). Os novos prefeitos que ainda não dispõem de senhas deverão entrar em contato com a Central de Atendimento do FNDE. Maiores informações e orientações poderão ser obtidas nos guias de orientação disponíveis no portal eletrônico (WWW.fnde.gov.br ).

Por  P.R.Barbosa

quarta-feira, 24 de abril de 2013

PAISAGENS AMAPAENSES: Bailique

Comunidade São João Batista - BAILIQUE


QUATI - animal bastante comum na região


CABA TATU - ninho de caba em formato de tatu


MACACO DE CHEIRO - símbolo da comunidade São João Batista


Frutos do Buritizeiro - palmeira da região


Chico e seu filho




COQUEIRO



Ruas do Bailique


Petróleo Amazônico


Bicho-preguiça



Igarapé dos Macacos


Enchente do Igarapé dos Macacos


Ruas sobre as águas


Casal de arara azul


O amor é lindo!


De volta pra cidade


Saudade de casa



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013


Açaí, o “petróleo” amazônico

O pão de cada dia dos amapaenses, que veio da floresta para conquistar o Brasil e o mundo

COMO NOS VELHOS TEMPOS - Coleta do fruto do açaí, na região do Bailique, é feita pelos ribeirinhos, que vendem o produto para abastecer as amassadeiras e as mesas dos moradores da cidade
 
Houve um tempo em que o Estado do Amapá era conhecido nacional e internacionalmente pelas suas grandes jazidas de minérios. Foi assim com o manganês, ouro, ferro, e tantos outros, que ainda alimentam as grandes empresas mineradoras do país e do exterior.
 
No entanto, nos últimos anos, novos produtos vêm ganhando mercado e a adesão de consumidores nos mais diversos cantos do Brasil e do mundo. Trata-se dos produtos originários do extrativismo vegetal ou como são conhecidos “produtos da floresta”. E, entre tantas espécies, destaca- se o açaí, produto extraído de uma palmeira denominada açaizeiro (Euterpe oleraceae) e que vem deixando de ser ingrediente exclusivo da alimentação do povo nortista para conquistar a mesa e o apetite de gringos mundo afora.
 
Localizado no Extremo Norte do Brasil, o Estado do Amapá possui uma área de 142.827,897 km². Desse total, aproximadamente 624.576,28 ha, ou seja, 5% do território amapaense é recoberto por florestas de várzea, berço perfeito para o nascimento e desenvolvimento das palmeiras do açaí.
 
Apesar de todo esse potencial e ainda contando com um dos menores índices de desmatamento do país, a produção de açaí no Amapá ainda é pouco desenvolvida. De acordo com o Instituto Estadual de Florestas (IEF/AP), de todo o açaí que é consumido e industrializado no estado, 89% provém das ilhas vizinhas pertencentes ao Estado do Pará. Isso significa que apenas 11% da produção local do açaí, é retirada das florestas amapaenses. Desse quantitativo, 9% vem dos municípios de Santana, Mazagão e Macapá, que são os maiores produtores de açaí entre os municípios do estado.
 
E entre as regiões produtoras de açaí do município de Macapá, está o Arquipélago do Bailique, por onde iniciamos nossa viagem para mostrar o fluxo do açaí retirado da floresta até o momento em que chega à mesa do consumidor na capital amapaense ou toma outro destino. 
 
O arquipélago do Bailique, distante 150 km da capital Macapá, é formado por sete ilhas e possui uma população aproximada de 7 mil habitantes, distribuídos em 48 comunidades ribeirinhas, onde parte desse contingente ainda sobrevive à custa das extensas áreas de florestas e rios da região. Um local onde verdadeiramente se encontra açaí em abundância no período de safra que inicia-se em março e estende-se até o mês de agosto. E foi nesse arquipélago que ouvi, pela primeira vez, o açaí ser chamado de “petróleo”, numa associação da cor de seu vinho com o combustível fóssil.

 
A nossa viagem começa na Comunidade São João Batista, onde somos recebidos por Antonio Barbosa, um senhor de 73 anos de idade, casado com Dona Tereza e pai de nove filhos. Orgulha-se em dizer que viveu da pesca e da carpintaria naval. Hoje está aposentado e com todos os filhos criados. Seu Antonio, já de cabelos brancos, tem dificuldade em se locomover por conta de seu problema de vista, mas nada que o impeça de nos agraciar com suas ricas histórias e experiência de vida. É ele que nos relata que o açaí sempre fez parte da alimentação do povo bailiquiense. Contudo, como diz, “nunca foi um produto que desse para se ganhar dinheiro, até mesmo porque naquele arquipélago, cada família tinha o seu terreno de onde retirava o açaí para sua alimentação, assim não era preciso comprar”. E levar para vender em Macapá também não era algo que pudesse gerar tanto lucro devido às despesas com o transporte até a capital. Ele acrescenta ainda que “o açaí era tão desvalorizado que as pessoas preferiam vender o palmito”, produto extraído do caule do açaizeiro, o que contribuiu para o surgimento de muitas fábricas de palmito na região. E mesmo com o baixo preço pago pelo pé do açaizeiro, Antonio Barbosa afirma que “(...) era a única forma de se ganhar dinheiro com a palmeira”. E isso acabou gerando um grave problema ambiental para a região, pois muitas áreas de açaizais do arquipélago foram dizimadas por conta da extração predatória do palmito.
Hoje Antonio Barbosa vê com bons olhos a valorização do fruto do açaí, pois ele considera que “o preço pago pelo açaí na região está fazendo com que os moradores troquem o comércio do palmito pela venda do fruto”. E isso implica “ganhar dinheiro com o fruto sem ter que matar a palmeira”, como diz Antonio Barbosa. Garantindo assim, renda ao ribeirinho por várias safras.
 
E, conforme pudemos constatar, as declarações do Senhor Antonio Barbosa são procedentes, pois as fábricas de palmito estão desaparecendo e as áreas de açaizais estão aumentando cada vez mais no Bailique. Os proprietários de terras estão repensando a prática de exploração dos açaizais e inserindo-se em um novo modelo econômico que alia a exploração da floresta com a preservação de sua flora. Antonio Barbosa relembra com pesar que nos tempos da exploração do palmito, não eram apenas os açaizeiros que eram sacrificados, mas sim todo o ecossistema a sua volta. “Os peixes sumiam, a caça desaparecia... e toda a floresta morria junto”, afirma o ancião.
 
A mudança de paradigma dos moradores do Bailique com relação ao açaí é tão evidente que segundo dados do IEF, muitos proprietários de terra estão implantando o Sistema de Manejo de Açaizais Nativos em suas propriedades.

Tecnologia na produção do açaí
O Sistema de Manejo de Açaizais Nativos de Mínimo Impacto, como é denominado, é uma técnica desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) no Amapá e que tem como objetivo aumentar a produção de açaí sem causar impacto à natureza.
 
Segundo José Leite, engenheiro agrônomo da Embrapa, o projeto segue duas linhas de pesquisa. “Uma em que o manejo é feito especificamente para áreas de açaizais nativos de várzea, cuja preocupação, além de aumentar a produção é conservar a diversidade da floresta. A outra é voltada exclusivamente para a agricultura do açaí, onde é feito o trabalho de produção de mudas com melhoramento genético para áreas de Terra Firme”, explica o engenheiro. De uma forma ou de outra, José Leite afirma que “esse tipo de tecnologia, além de aumentar a produção do açaí, estende o período de safra do produto”.
Mario Marinho - Coordenador Técnico IEF/AP
Pensando nesta tecnologia como uma alternativa para aumentar a produção do açaí no estado e diminuir a grande demanda gerada nos últimos anos, o governo vem incentivando os produtores a aderirem ao projeto com a oferta de financiamento de recursos e orientação técnica por meio dos extensionistas rurais e florestais do Instituto de Desenvolvimento Rural do Amapá (Rurap) e Instituto Estadual de Florestas (IEF), que possuem uma equipe técnica treinada pela Embrapa para dar suporte ao produtor na ponta da cadeia produtiva do açaí.
 
Pelos estudos do IEF, o Estado do Amapá possui um potencial muito grande para a produção do açaí orgânico. Nesse sentido, o Instituto vem procurando oferecer capacitação e fomento aos produtores de açaí que necessitam desse apoio. O objetivo, segundo Mario Marinho, coordenador técnico do IEF, “é incentivar a produção do açaí em maior escala com o aproveitamento natural das áreas de várzea do Estado”. Atualmente o manejo de açaizais já alcançou a quase 50% das áreas de várzea do estado com treinamento de mais de 1.400 produtores no período de 2008 a 2011, mas a meta do instituto, segundo o coordenador técnico, é chegar aos 100% das áreas de várzea manejadas. Para isso, os extensionistas florestais estão indo até o produtor, através da política de interiorização, montando escritórios nas regiões onde as demandas são diagnosticadas.
 
O Sistema de Manejo desenvolvido pela Embrapa é muito vantajoso, tanto do ponto de vista ambiental porque preserva a floresta, quanto do ponto de vista econômico. Segundo José Leite, engenheiro- agrônomo da Embrapa, com a técnica do manejo, a produção de açaí poderá crescer até 400% a mais do que a produção em condições naturais.

O fluxo do açaí colhido no Bailique
Deixando a companhia de Antonio Barbosa que, pela sua idade, deixou de tirar açaí há muitos anos, seguimos para uma das áreas de manejo do Bailique. Pegando carona com Nelton da Silva (32) em sua montaria, um pequeno barco movido a remo, seguimos rio acima até o açaizal.
VIDA RIBEIRINHA - Nelton da Silva complementa a renda com a venda de açaí.

Durante a viagem, Nelton nos conta que trabalha como prestador de serviço de transporte escolar e que nas horas vagas tira açaí para vender e aumentar a sua renda familiar. É casado, mas ainda não possui nenhum herdeiro.
 
De repente, temos que interromper nosso papo, pois os primeiros cachos começam a surgir pelas copas dos açaizeiros. É o momento em que Nelton se apodera de sua experiência para colher os frutos do açaí.
 
Para retirar os cachos das árvores, o produtor ou peconheiro, como também é chamado, se serve da própria natureza para criar os utensílios de que precisa. Com as folhas ou coroatá, parte da folha seca da palmeira, Nelton faz a peconha, uma espécie de cinta para os pés que o auxilia na escalada até o cacho. Aí é só contar com a habilidade para vencer os mais de vinte metros de altura das palmeiras.
E entre subidas e descidas, os cachos de açaí são amontoados aos pés dos açaizeiros. E quando o peconheiro se dá por satisfeito ou quando suas condições físicas estão no limite, é hora de parar a colheita e separar os frutos dos cachos, ou simplesmente debulhar, como é conhecido o processo na região. Depois é só ensacar a parte que será comercializada e escolher os frutos especiais que serão transformados em vinho para o almoço ou jantar. Pelas nossas contas, para encher uma saca de 60 quilos são necessários em média 12 cachos grandes de açaí.
 
O açaí é vendido em sacas de 30 ou 60 quilos aos compradores intermediários que escoam o produto para ser vendido na capital Macapá ou simplesmente vendem diretamente aos compradores do Estado do Pará, que aportam diariamente na região com seus barcos frigorificados para comprar o produto e abastecer aquele estado, já que o Pará, no período que vai de janeiro a agosto, vive a entressafra do açaí.
 
Os produtores do Bailique estão preferindo vender a produção diretamente aos compradores paraenses, que pagam melhor pelo produto, do que vender aos atravessadores ou mandar para a capital, interrompendo assim o fluxo do açaí produzido no arquipélago que, até poucos anos, era exclusivo do mercado amapaense. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), 68,6% da produção do fruto são comercializados através de intermediários. Apenas 31,4% são vendidos pelo próprio extrativista diretamente aos batedores de açaí.
 
Aliás, essa é uma problemática que precisa ser pensada pelos órgãos públicos. Para que o açaí possa suprir a demanda com produto de qualidade a um custo acessível à população, é necessário melhorar a infraestrutura de escoamento da produção, no que diz respeito ao transporte adequado, eliminação de intermediários e construção de entreposto para a comercialização do produto. E como o açaí é um produto perecível, o seu transporte inadequado, como se vê nos barcos que trazem o açaí do Bailique até a capital, não só prejudica a qualidade do produto como o desvaloriza economicamente.
 
Seguindo o fluxo do açaí retirado no Bailique até a capital, acompanhamos a produção do Nelton, que vendida ao intermediário, segue transportado em um barco, disputando espaço com os passageiros. Depois de 12 horas de viagem, o açaí é desembarcado no Canal do Jandiá e vendido aos atravessadores ou batedores de açaí. Geralmente é esse o açaí que é vendido nas batedeiras que se espalham pelas ruas e becos da capital e que chega a mesa do consumidor. No entanto, vale ressaltar que o mercado do açaí hoje no estado não está restrito apenas ao abastecimento da demanda interna. Muito da produção dos últimos anos vem ganhando mercado em outras regiões do Brasil e do exterior.
 
Apesar da disseminação do açaí mundo afora, Pará e Amapá juntos ainda são os maiores consumidores do produto do planeta. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Estado do Pará consome cerca de 600 mil toneladas de açaí por ano, seguido do Amapá com 80 mil toneladas. Enquanto que a maior exportadora do produto mandou cerca de 8 mil toneladas de açaí para o exterior no ano de 2010. Isso implica afirmar que Pará e Amapá juntos consomem aproximadamente 90% do açaí extraído no mundo. Os outros 10% alimentam os demais mercados brasileiros e estrangeiros.

Na linguagem monetária, isso equivale a dizer que os dois estados brasileiros movimentam cerca de 2,5 bilhões de reais por ano com o mercado do açaí. Sendo que, especificamente no Amapá são 500 milhões de reais anuais, o que representa cerca de 2% do PIB – Produto Interno Bruto do estado.
Quanto à exportação, no Amapá, em 2010, segundo dados da pesquisa realizada pela economista Cláudia Chelala, o açaí ocupou o quinto item na pauta de exportação, com US$ 7,6 mi, representando 2,16% de tudo o que foi exportado.
 
Esse é um fato que o Senhor Antonio Barbosa precisa acrescentar no seu vasto repertório sobre a história do açaí e que o Nelton da Silva jamais imagina que o açaí que ele colhe lá no Bailique poderá alimentar gringos nos mais diversos cantos do mundo.

Novas perspectivas para o açaí
O mercado internacional do açaí vem chamando a atenção de muitas empresas exportadoras, como a Açaí do Amapá Agro-Industrial Ltda (Sambazon) que pertence a um grupo de americanos e que está instalada no Estado desde 2000, atuando na exportação de polpa de açaí e outros derivados para o mercado norte-americano. Segundo dados divulgados pela empresa, a Sambazon exporta uma média de 11 mil toneladas de açaí por ano.
 
Apesar desse promissor mercado estrangeiro, o maior volume de exportação do açaí amapaense ainda é, e será por muito tempo, o mercado paraense. Como a safra de açaí nos dois estados é diferente, as empresas que aqui se instalam se aproveitam do período da entressafra naquele estado, beneficiam o açaí aqui no Amapá e depois abastecem o mercado paraense com a polpa do produto.
 
E foi pensando nesse período de entressafra que a Embrapa está desenvolvendo um banco de germoplasma de açaí que contribuirá para a montagem de um banco de produção de sementes de matrizes selecionadas capazes de produzir açaí no Amapá na época de entressafra, ou seja, no verão. Segundo José Leite, “os estudos estão avançados e os primeiros resultados são positivos”, o que deixa o pesquisador bastante otimista de que nos próximos 20 anos a produção de açaí no Amapá poderá perdurar o ano inteiro.
 
Esse é o futuro e o grande desafio que se coloca para o açaí que já foi comparado ao petróleo por sua cor e que hoje poderá ganhar um novo elemento nessa relação comparativa que é o seu grande valor econômico. Só que diferente do combustível fóssil, não renovável, que sangra do solo e destrói o meio ambiente. O açaí é um combustível natural que nasce do alto das árvores, não destrói a natureza e não compromete o alimento das gerações atuais e nem o futuro das gerações vindouras. E que poderá trazer grande desenvolvimento econômico e social para o Estado do Amapá e ao Brasil, quanto mais rápido tiver o seu mercado formalmente organizado.
Euterpe Oleraceae - a popular açaízeira, palmeira típica das florestas amapaenses.

 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

CONTOS DA MINHA TERRA: "Esconde Santo"


O mastro com a bandeira é uma homenagem ao santo padroeiro da comunidade


A devoção a santo sempre foi muito marcante nas comunidades que compõem o Arquipélago do Bailique, distrito do Município de Macapá, Estado do Amapá. Distante aproximadamente 150 Km de Macapá, o Bailique é formado por 48 comunidades que abrigam cerca de 7 mil habitantes distribuídos nas 7 ilhas que compõem o arquipélago. Ainda muito isolado da Capital Macapá, o meio mais fácil de se chegar até lá é navegando pelo Rio Amazonas, numa viagem que pode durar até 12 h. E foi esse isolamento que fez com que as comunidades preservassem, durante muito tempo,  seus costumes e tradições locais, passadas de geração a geração por meio, quase que exclusivamente, oral.

Visitando alguns núcleos populacionais, notamos que a planta estrutural das comunidades é composta, basicamente, de casas populares, escola, campo de futebol e uma igreja. Esta última é elemento integrante e essencial na paisagem comunitária e representa a religiosidade daquele povo, herança herdada dos colonizadores europeus.

Há alguns anos, cada comunidade possuía seu santo padroeiro, mostrando o domínio do catolicismo na região. Com o tempo, novas religiões foram surgindo e dividindo espaço e fiéis com a antiga religião. Hoje, muitas comunidades já possuem, no mínimo, duas igrejas, sendo uma católica e uma protestante. E como os núcleos populacionais estão instalados sempre às margens dos rios, há casos em que em cada margem é praticada um tipo de religião. E casos em que a predominância de uma religião é quase absoluta, como as vilas Progresso e Macedonia, onde o catolicismo e o protestantismo são religiões oficiais, respectivamente. Não se trata apenas de uma divisão geográfica de espaço, mas de dogmas, comportamento, visão de mundo.

Nos últimos anos, com a nova geração mais antenada e atualizada aos novos paradigmas da sociedade moderna parece que a religião vem perdendo um pouco do espaço que ocupava na vida dos bailiquienses. Mas, houve um tempo em que famílias inteiras participavam de cultos e festas religiosas. As festas de santo, por exemplo, era o ponto alto da fé dos cristãos, onde era celebrada toda a devoção dos fiéis aos santos padroeiros. Dona Tereza nos conta uma história bastante curiosa que ocorreu entre duas comunidades no Igarapé dos Macacos, e que retrata bem essa antiga relação dogmática do povo bailiquiense com a religião.

O Igarapé dos Macacos é, na verdade, um furo que liga o Canal do Marinheiro à Foz do Rio Amazonas. E próximo a Foz do Rio Amazonas havia a comunidade de Igarapé dos Macacos, fundada pelo casal Manoel e Rosinda Barbosa, já falecidos, que juntos tiveram 13 filhos. A comunidade crescia à medida que seus filhos foram se casando. Até o momento em que duas de suas filhas resolveram morar na outra foz do Furo dos Macacos, próximo ao Canal do Marinheiro. E, ali, distante cerca de 10 km da outra comunidade, formaram-se novas famílias até constituírem uma nova comunidade, com o nome de São João Batista. E, como as duas comunidades foram formadas por descendentes da mesma família, que tinham como devoto o mesmo santo, eis que surge aí um grande problema, pois só havia uma réplica do Santo para as duas comunidades.

Ocorre que, por ocasião do dia de São João (24 de junho), a Comunidade São João Batista resolveu reviver a antiga festa que era organizada na comunidade de Igarapé dos Macacos e, que há anos estava esquecida. E, para tanto, solicitaram da matriarca da família a liberação da imagem do santo para a nova comunidade durante os festejos. Só que na mesma data, os líderes da comunidade Igarapé dos macacos resolvem também realizar uma programação em homenagem ao santo. O impasse estava criado. E há menos de uma semana ouviu-se rumores de que o santo não seria liberado para os festejos da Comunidade São João Batista.

Com tudo já organizado, não seria possível realizar uma festa sem a presença do santo homenageado. Foi uma grande revolta e desespero para a Comunidade São João Batista. Instalou-se um clima de guerra entre as duas comunidades. E, para aumentar ainda mais a confusão, eis que o santo desaparece de seu altar. Será que por vergonha da confusão arranjada pelos seus fiéis? O fato é que para a Comunidade São João Batista não havia dúvidas de que aquele sumiço seria uma armação da outra comunidade para não deixar o santo sair da comunidade.

Diversas estratégias foram planejadas pela Comunidade São João Batista para resgatar o santo. Inclusive com busca no mato, pelos arredores da comunidade. Agentes secretos foram infiltrados na própria comunidade para investigar o possível paradeiro do santo, mas nada teve resultado positivo. Até que, no último caso, a Comunidade São João Batista apelou a uma empresária da região que, num ato de solidariedade, resolveu doar a imagem do santo à comunidade. O fato é que, por providencias divinas ou não, cada comunidade realizou sua festa com o seu santo. O santo sumido reapareceu e até hoje continua na Comunidade de Igarapé dos Macacos. Dias depois soube-se que o santo estava o tempo todo escondido embaixo da cama de um dos líderes daquela comunidade. Por esse fato, este senhor ficou conhecido na região como o famoso “Esconde Santo”.

Apesar da grande confusão instalada na época, acusações, ofensas e outras intrigas... Hoje as duas comunidades vivem em paz, celebrando, cada qual com seu santo, suas convicções religiosas. Como tem que ser!
Comunidade São João Batista - Arquipélago do Bailique

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Imagens do Amapá: Carmo do Macacoari

Paisagem campestre às margens do Rio Macacoari - Município de Itaubal





Meios de transporte marítimo utilizado pela população do Carmo do Macacoari



Vista parcial do Rio Macacoari com sua paisagem ribeirinha
Casas em estilo palafita às margens do Rio Macacoari
Passeio em família no Rio Macacoari com rabeta
O ribeirinho e sua montaria - uma parceria de sucesso
Vista Parcial da Vila do Carmo do Macacoari
Prédios modernos também fazem parte da arquitetura local
Hipódromo onde ocorrem as corridas de cavalo durante os festejos de são Sebastião
Vista da rua principal da vila do Carmo
Paisagem típica da região ao longo da estrada e ramais do Carmo
Bacabeira - palmeira bastante comum na região
Paisagem de terra firme também presente na vegetação do Carmo
Estrada de terra construída em meio a floresta
Campo alagado - rico ecossistema no período de inverno
Criação de bubalino também faz parte da pecuária local
A criação de búfalos contrasta com a paisagem natural
Paisagem lacustre  no Carmo do Macacoari
A região dos lagos é riquíssima em variadas espécies de peixes
Criação de cavalos ajuda a população no transporte de pessoas e mercadorias

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

ÁGUA SALGADA INVADE O BAILIQUE

Vila Progresso - Principal comunidade do Arquipélago do Bailique

Assoreamento dos rios do Bailique
Depois de um cansativo dia de trabalho, seu Manoel chega em casa, e com muita fome, vai logo pegando a tigela para fazer o pirão de açaí para comer com camarão. Para sua surpresa na sua primeira colherada sente algo estranho. Indignado pergunta à esposa se esta havia colocado sal no açaí. Depois de algumas horas, seu Manoel percebe que não se tratara do desleixo de sua esposa. O açaí estava salubre devido a água usada para o seu preparo. E com o mesmo gosto estava a água de beber e tudo o que dela havia sido feito. Desesperado seu Manoel foi até o rio, provou da água e confirmou sua suspeita... Bem que este trecho poderia ter sido extraído de um romance de ficção ou de alguma história ocorrida na Vila do Sucurijú, no município de Amapá. Mas, trata-se de um fato real que está ocorrendo no Arquipélago do Bailique.
 
O Arquipélago do Bailique, distante cerca de 150 km da capital amapaense é formado por sete ilhas e possui aproximadamente 7.000 habitantes, distribuídos nas diversas comunidades ribeirinhas que compõem o distrito macapaense. Localizado na foz do Rio Amazonas, o arquipélago está de frente para o Oceano Atlântico. Apesar dessa proximidade com o oceano, a invasão das águas salgadas deixou de ser um problema para a população bailiquiense há mais de meio século. Com o tempo, as ilhas cresceram e a costa bailiquiense juntamente com a força do Rio Amazonas empurraram as correntes oceânicas para bem distante do Bailique.

Muro construído para proteger a comunidade das caídas 
Mas, o oceano sentindo-se expulso do paraíso preparou sua revanche de forma triunfal. Armou uma estratégia que nem o mais esperto inimigo pudesse suspeitar. Sentindo-se impotente para atacar de frente, o Oceano Atlântico se alia ao Rio Araguari e dispara suas águas no interior do arquipélago. Com a potência de uma bomba, a água salgada do oceano está expulsando a água doce do Rio Amazonas e invadindo o arquipélago, num movimento que vai do centro para as costas do arquipélago.
 
Como bem sabemos, o Rio Araguari deságua no Oceano Atlântico. E através de sua foz, recebe água oceânica que invade boa parte do rio. O choque da água oceânica com a água do Rio Araguari está fazendo com que a água salgada seja desviada por canais até os rios do Bailique. Há forte suspeitas de que a criação de bubalino na região do Araguari esteja relacionada com o surgimento desses canais que estão interligando o Rio Araguari com a região do Bailique. E há quem diga ainda, que a construção da hidrelétrica no leito do Rio Araguari, próximo ao município de Ferreira Gomes, esteja interrompendo o fluxo normal do rio e desviando seu curso para os canais que deságuam no Bailique.


Vegetação litorânea sendo arrastada pela correnteza das marés
Apesar de serem suposições empíricas, tais hipóteses podem ter algum fundamento científico. De uma forma ou de outra, o fato é que as águas salgadas estão invadindo o arquipélago e trazendo sérias preocupações para a população daquela região. A força da água vinda do Rio Araguari é tamanha que está provocando uma grande caída de terras e levando para a água dezenas de casas e até comunidades inteiras. Se por um lado provoca a caída de terras, por outro, provoca o assoreamento de outros rios, principalmente dos canais por onde poderiam passar as águas doces do Rio Amazonas.

Outro problema que poderá trazer sérias consequências  está relacionado ao  ecossistema. Já foram identificadas algumas espécies específicas da região do Araguari dentro do arquipélago bailiquiense, provando que a invasão das águas salgadas poderá provocar um grande desequilíbrio ecológico na região. Podem surgir novas espécies como também pode provocar o desaparecimento e até a extinção de outras.
 
Até agora não se tem uma real dimensão do problema. O que sabemos é que os comércios locais estão sendo abastecidos de água mineral, cena típica de oportunismo diante uma situação catastrófica. Oremos para que não seja o caso.

Caída de terras provocada pela corrente das marés