sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013


Açaí, o “petróleo” amazônico

O pão de cada dia dos amapaenses, que veio da floresta para conquistar o Brasil e o mundo

COMO NOS VELHOS TEMPOS - Coleta do fruto do açaí, na região do Bailique, é feita pelos ribeirinhos, que vendem o produto para abastecer as amassadeiras e as mesas dos moradores da cidade
 
Houve um tempo em que o Estado do Amapá era conhecido nacional e internacionalmente pelas suas grandes jazidas de minérios. Foi assim com o manganês, ouro, ferro, e tantos outros, que ainda alimentam as grandes empresas mineradoras do país e do exterior.
 
No entanto, nos últimos anos, novos produtos vêm ganhando mercado e a adesão de consumidores nos mais diversos cantos do Brasil e do mundo. Trata-se dos produtos originários do extrativismo vegetal ou como são conhecidos “produtos da floresta”. E, entre tantas espécies, destaca- se o açaí, produto extraído de uma palmeira denominada açaizeiro (Euterpe oleraceae) e que vem deixando de ser ingrediente exclusivo da alimentação do povo nortista para conquistar a mesa e o apetite de gringos mundo afora.
 
Localizado no Extremo Norte do Brasil, o Estado do Amapá possui uma área de 142.827,897 km². Desse total, aproximadamente 624.576,28 ha, ou seja, 5% do território amapaense é recoberto por florestas de várzea, berço perfeito para o nascimento e desenvolvimento das palmeiras do açaí.
 
Apesar de todo esse potencial e ainda contando com um dos menores índices de desmatamento do país, a produção de açaí no Amapá ainda é pouco desenvolvida. De acordo com o Instituto Estadual de Florestas (IEF/AP), de todo o açaí que é consumido e industrializado no estado, 89% provém das ilhas vizinhas pertencentes ao Estado do Pará. Isso significa que apenas 11% da produção local do açaí, é retirada das florestas amapaenses. Desse quantitativo, 9% vem dos municípios de Santana, Mazagão e Macapá, que são os maiores produtores de açaí entre os municípios do estado.
 
E entre as regiões produtoras de açaí do município de Macapá, está o Arquipélago do Bailique, por onde iniciamos nossa viagem para mostrar o fluxo do açaí retirado da floresta até o momento em que chega à mesa do consumidor na capital amapaense ou toma outro destino. 
 
O arquipélago do Bailique, distante 150 km da capital Macapá, é formado por sete ilhas e possui uma população aproximada de 7 mil habitantes, distribuídos em 48 comunidades ribeirinhas, onde parte desse contingente ainda sobrevive à custa das extensas áreas de florestas e rios da região. Um local onde verdadeiramente se encontra açaí em abundância no período de safra que inicia-se em março e estende-se até o mês de agosto. E foi nesse arquipélago que ouvi, pela primeira vez, o açaí ser chamado de “petróleo”, numa associação da cor de seu vinho com o combustível fóssil.

 
A nossa viagem começa na Comunidade São João Batista, onde somos recebidos por Antonio Barbosa, um senhor de 73 anos de idade, casado com Dona Tereza e pai de nove filhos. Orgulha-se em dizer que viveu da pesca e da carpintaria naval. Hoje está aposentado e com todos os filhos criados. Seu Antonio, já de cabelos brancos, tem dificuldade em se locomover por conta de seu problema de vista, mas nada que o impeça de nos agraciar com suas ricas histórias e experiência de vida. É ele que nos relata que o açaí sempre fez parte da alimentação do povo bailiquiense. Contudo, como diz, “nunca foi um produto que desse para se ganhar dinheiro, até mesmo porque naquele arquipélago, cada família tinha o seu terreno de onde retirava o açaí para sua alimentação, assim não era preciso comprar”. E levar para vender em Macapá também não era algo que pudesse gerar tanto lucro devido às despesas com o transporte até a capital. Ele acrescenta ainda que “o açaí era tão desvalorizado que as pessoas preferiam vender o palmito”, produto extraído do caule do açaizeiro, o que contribuiu para o surgimento de muitas fábricas de palmito na região. E mesmo com o baixo preço pago pelo pé do açaizeiro, Antonio Barbosa afirma que “(...) era a única forma de se ganhar dinheiro com a palmeira”. E isso acabou gerando um grave problema ambiental para a região, pois muitas áreas de açaizais do arquipélago foram dizimadas por conta da extração predatória do palmito.
Hoje Antonio Barbosa vê com bons olhos a valorização do fruto do açaí, pois ele considera que “o preço pago pelo açaí na região está fazendo com que os moradores troquem o comércio do palmito pela venda do fruto”. E isso implica “ganhar dinheiro com o fruto sem ter que matar a palmeira”, como diz Antonio Barbosa. Garantindo assim, renda ao ribeirinho por várias safras.
 
E, conforme pudemos constatar, as declarações do Senhor Antonio Barbosa são procedentes, pois as fábricas de palmito estão desaparecendo e as áreas de açaizais estão aumentando cada vez mais no Bailique. Os proprietários de terras estão repensando a prática de exploração dos açaizais e inserindo-se em um novo modelo econômico que alia a exploração da floresta com a preservação de sua flora. Antonio Barbosa relembra com pesar que nos tempos da exploração do palmito, não eram apenas os açaizeiros que eram sacrificados, mas sim todo o ecossistema a sua volta. “Os peixes sumiam, a caça desaparecia... e toda a floresta morria junto”, afirma o ancião.
 
A mudança de paradigma dos moradores do Bailique com relação ao açaí é tão evidente que segundo dados do IEF, muitos proprietários de terra estão implantando o Sistema de Manejo de Açaizais Nativos em suas propriedades.

Tecnologia na produção do açaí
O Sistema de Manejo de Açaizais Nativos de Mínimo Impacto, como é denominado, é uma técnica desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) no Amapá e que tem como objetivo aumentar a produção de açaí sem causar impacto à natureza.
 
Segundo José Leite, engenheiro agrônomo da Embrapa, o projeto segue duas linhas de pesquisa. “Uma em que o manejo é feito especificamente para áreas de açaizais nativos de várzea, cuja preocupação, além de aumentar a produção é conservar a diversidade da floresta. A outra é voltada exclusivamente para a agricultura do açaí, onde é feito o trabalho de produção de mudas com melhoramento genético para áreas de Terra Firme”, explica o engenheiro. De uma forma ou de outra, José Leite afirma que “esse tipo de tecnologia, além de aumentar a produção do açaí, estende o período de safra do produto”.
Mario Marinho - Coordenador Técnico IEF/AP
Pensando nesta tecnologia como uma alternativa para aumentar a produção do açaí no estado e diminuir a grande demanda gerada nos últimos anos, o governo vem incentivando os produtores a aderirem ao projeto com a oferta de financiamento de recursos e orientação técnica por meio dos extensionistas rurais e florestais do Instituto de Desenvolvimento Rural do Amapá (Rurap) e Instituto Estadual de Florestas (IEF), que possuem uma equipe técnica treinada pela Embrapa para dar suporte ao produtor na ponta da cadeia produtiva do açaí.
 
Pelos estudos do IEF, o Estado do Amapá possui um potencial muito grande para a produção do açaí orgânico. Nesse sentido, o Instituto vem procurando oferecer capacitação e fomento aos produtores de açaí que necessitam desse apoio. O objetivo, segundo Mario Marinho, coordenador técnico do IEF, “é incentivar a produção do açaí em maior escala com o aproveitamento natural das áreas de várzea do Estado”. Atualmente o manejo de açaizais já alcançou a quase 50% das áreas de várzea do estado com treinamento de mais de 1.400 produtores no período de 2008 a 2011, mas a meta do instituto, segundo o coordenador técnico, é chegar aos 100% das áreas de várzea manejadas. Para isso, os extensionistas florestais estão indo até o produtor, através da política de interiorização, montando escritórios nas regiões onde as demandas são diagnosticadas.
 
O Sistema de Manejo desenvolvido pela Embrapa é muito vantajoso, tanto do ponto de vista ambiental porque preserva a floresta, quanto do ponto de vista econômico. Segundo José Leite, engenheiro- agrônomo da Embrapa, com a técnica do manejo, a produção de açaí poderá crescer até 400% a mais do que a produção em condições naturais.

O fluxo do açaí colhido no Bailique
Deixando a companhia de Antonio Barbosa que, pela sua idade, deixou de tirar açaí há muitos anos, seguimos para uma das áreas de manejo do Bailique. Pegando carona com Nelton da Silva (32) em sua montaria, um pequeno barco movido a remo, seguimos rio acima até o açaizal.
VIDA RIBEIRINHA - Nelton da Silva complementa a renda com a venda de açaí.

Durante a viagem, Nelton nos conta que trabalha como prestador de serviço de transporte escolar e que nas horas vagas tira açaí para vender e aumentar a sua renda familiar. É casado, mas ainda não possui nenhum herdeiro.
 
De repente, temos que interromper nosso papo, pois os primeiros cachos começam a surgir pelas copas dos açaizeiros. É o momento em que Nelton se apodera de sua experiência para colher os frutos do açaí.
 
Para retirar os cachos das árvores, o produtor ou peconheiro, como também é chamado, se serve da própria natureza para criar os utensílios de que precisa. Com as folhas ou coroatá, parte da folha seca da palmeira, Nelton faz a peconha, uma espécie de cinta para os pés que o auxilia na escalada até o cacho. Aí é só contar com a habilidade para vencer os mais de vinte metros de altura das palmeiras.
E entre subidas e descidas, os cachos de açaí são amontoados aos pés dos açaizeiros. E quando o peconheiro se dá por satisfeito ou quando suas condições físicas estão no limite, é hora de parar a colheita e separar os frutos dos cachos, ou simplesmente debulhar, como é conhecido o processo na região. Depois é só ensacar a parte que será comercializada e escolher os frutos especiais que serão transformados em vinho para o almoço ou jantar. Pelas nossas contas, para encher uma saca de 60 quilos são necessários em média 12 cachos grandes de açaí.
 
O açaí é vendido em sacas de 30 ou 60 quilos aos compradores intermediários que escoam o produto para ser vendido na capital Macapá ou simplesmente vendem diretamente aos compradores do Estado do Pará, que aportam diariamente na região com seus barcos frigorificados para comprar o produto e abastecer aquele estado, já que o Pará, no período que vai de janeiro a agosto, vive a entressafra do açaí.
 
Os produtores do Bailique estão preferindo vender a produção diretamente aos compradores paraenses, que pagam melhor pelo produto, do que vender aos atravessadores ou mandar para a capital, interrompendo assim o fluxo do açaí produzido no arquipélago que, até poucos anos, era exclusivo do mercado amapaense. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), 68,6% da produção do fruto são comercializados através de intermediários. Apenas 31,4% são vendidos pelo próprio extrativista diretamente aos batedores de açaí.
 
Aliás, essa é uma problemática que precisa ser pensada pelos órgãos públicos. Para que o açaí possa suprir a demanda com produto de qualidade a um custo acessível à população, é necessário melhorar a infraestrutura de escoamento da produção, no que diz respeito ao transporte adequado, eliminação de intermediários e construção de entreposto para a comercialização do produto. E como o açaí é um produto perecível, o seu transporte inadequado, como se vê nos barcos que trazem o açaí do Bailique até a capital, não só prejudica a qualidade do produto como o desvaloriza economicamente.
 
Seguindo o fluxo do açaí retirado no Bailique até a capital, acompanhamos a produção do Nelton, que vendida ao intermediário, segue transportado em um barco, disputando espaço com os passageiros. Depois de 12 horas de viagem, o açaí é desembarcado no Canal do Jandiá e vendido aos atravessadores ou batedores de açaí. Geralmente é esse o açaí que é vendido nas batedeiras que se espalham pelas ruas e becos da capital e que chega a mesa do consumidor. No entanto, vale ressaltar que o mercado do açaí hoje no estado não está restrito apenas ao abastecimento da demanda interna. Muito da produção dos últimos anos vem ganhando mercado em outras regiões do Brasil e do exterior.
 
Apesar da disseminação do açaí mundo afora, Pará e Amapá juntos ainda são os maiores consumidores do produto do planeta. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Estado do Pará consome cerca de 600 mil toneladas de açaí por ano, seguido do Amapá com 80 mil toneladas. Enquanto que a maior exportadora do produto mandou cerca de 8 mil toneladas de açaí para o exterior no ano de 2010. Isso implica afirmar que Pará e Amapá juntos consomem aproximadamente 90% do açaí extraído no mundo. Os outros 10% alimentam os demais mercados brasileiros e estrangeiros.

Na linguagem monetária, isso equivale a dizer que os dois estados brasileiros movimentam cerca de 2,5 bilhões de reais por ano com o mercado do açaí. Sendo que, especificamente no Amapá são 500 milhões de reais anuais, o que representa cerca de 2% do PIB – Produto Interno Bruto do estado.
Quanto à exportação, no Amapá, em 2010, segundo dados da pesquisa realizada pela economista Cláudia Chelala, o açaí ocupou o quinto item na pauta de exportação, com US$ 7,6 mi, representando 2,16% de tudo o que foi exportado.
 
Esse é um fato que o Senhor Antonio Barbosa precisa acrescentar no seu vasto repertório sobre a história do açaí e que o Nelton da Silva jamais imagina que o açaí que ele colhe lá no Bailique poderá alimentar gringos nos mais diversos cantos do mundo.

Novas perspectivas para o açaí
O mercado internacional do açaí vem chamando a atenção de muitas empresas exportadoras, como a Açaí do Amapá Agro-Industrial Ltda (Sambazon) que pertence a um grupo de americanos e que está instalada no Estado desde 2000, atuando na exportação de polpa de açaí e outros derivados para o mercado norte-americano. Segundo dados divulgados pela empresa, a Sambazon exporta uma média de 11 mil toneladas de açaí por ano.
 
Apesar desse promissor mercado estrangeiro, o maior volume de exportação do açaí amapaense ainda é, e será por muito tempo, o mercado paraense. Como a safra de açaí nos dois estados é diferente, as empresas que aqui se instalam se aproveitam do período da entressafra naquele estado, beneficiam o açaí aqui no Amapá e depois abastecem o mercado paraense com a polpa do produto.
 
E foi pensando nesse período de entressafra que a Embrapa está desenvolvendo um banco de germoplasma de açaí que contribuirá para a montagem de um banco de produção de sementes de matrizes selecionadas capazes de produzir açaí no Amapá na época de entressafra, ou seja, no verão. Segundo José Leite, “os estudos estão avançados e os primeiros resultados são positivos”, o que deixa o pesquisador bastante otimista de que nos próximos 20 anos a produção de açaí no Amapá poderá perdurar o ano inteiro.
 
Esse é o futuro e o grande desafio que se coloca para o açaí que já foi comparado ao petróleo por sua cor e que hoje poderá ganhar um novo elemento nessa relação comparativa que é o seu grande valor econômico. Só que diferente do combustível fóssil, não renovável, que sangra do solo e destrói o meio ambiente. O açaí é um combustível natural que nasce do alto das árvores, não destrói a natureza e não compromete o alimento das gerações atuais e nem o futuro das gerações vindouras. E que poderá trazer grande desenvolvimento econômico e social para o Estado do Amapá e ao Brasil, quanto mais rápido tiver o seu mercado formalmente organizado.
Euterpe Oleraceae - a popular açaízeira, palmeira típica das florestas amapaenses.

 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

CONTOS DA MINHA TERRA: "Esconde Santo"


O mastro com a bandeira é uma homenagem ao santo padroeiro da comunidade


A devoção a santo sempre foi muito marcante nas comunidades que compõem o Arquipélago do Bailique, distrito do Município de Macapá, Estado do Amapá. Distante aproximadamente 150 Km de Macapá, o Bailique é formado por 48 comunidades que abrigam cerca de 7 mil habitantes distribuídos nas 7 ilhas que compõem o arquipélago. Ainda muito isolado da Capital Macapá, o meio mais fácil de se chegar até lá é navegando pelo Rio Amazonas, numa viagem que pode durar até 12 h. E foi esse isolamento que fez com que as comunidades preservassem, durante muito tempo,  seus costumes e tradições locais, passadas de geração a geração por meio, quase que exclusivamente, oral.

Visitando alguns núcleos populacionais, notamos que a planta estrutural das comunidades é composta, basicamente, de casas populares, escola, campo de futebol e uma igreja. Esta última é elemento integrante e essencial na paisagem comunitária e representa a religiosidade daquele povo, herança herdada dos colonizadores europeus.

Há alguns anos, cada comunidade possuía seu santo padroeiro, mostrando o domínio do catolicismo na região. Com o tempo, novas religiões foram surgindo e dividindo espaço e fiéis com a antiga religião. Hoje, muitas comunidades já possuem, no mínimo, duas igrejas, sendo uma católica e uma protestante. E como os núcleos populacionais estão instalados sempre às margens dos rios, há casos em que em cada margem é praticada um tipo de religião. E casos em que a predominância de uma religião é quase absoluta, como as vilas Progresso e Macedonia, onde o catolicismo e o protestantismo são religiões oficiais, respectivamente. Não se trata apenas de uma divisão geográfica de espaço, mas de dogmas, comportamento, visão de mundo.

Nos últimos anos, com a nova geração mais antenada e atualizada aos novos paradigmas da sociedade moderna parece que a religião vem perdendo um pouco do espaço que ocupava na vida dos bailiquienses. Mas, houve um tempo em que famílias inteiras participavam de cultos e festas religiosas. As festas de santo, por exemplo, era o ponto alto da fé dos cristãos, onde era celebrada toda a devoção dos fiéis aos santos padroeiros. Dona Tereza nos conta uma história bastante curiosa que ocorreu entre duas comunidades no Igarapé dos Macacos, e que retrata bem essa antiga relação dogmática do povo bailiquiense com a religião.

O Igarapé dos Macacos é, na verdade, um furo que liga o Canal do Marinheiro à Foz do Rio Amazonas. E próximo a Foz do Rio Amazonas havia a comunidade de Igarapé dos Macacos, fundada pelo casal Manoel e Rosinda Barbosa, já falecidos, que juntos tiveram 13 filhos. A comunidade crescia à medida que seus filhos foram se casando. Até o momento em que duas de suas filhas resolveram morar na outra foz do Furo dos Macacos, próximo ao Canal do Marinheiro. E, ali, distante cerca de 10 km da outra comunidade, formaram-se novas famílias até constituírem uma nova comunidade, com o nome de São João Batista. E, como as duas comunidades foram formadas por descendentes da mesma família, que tinham como devoto o mesmo santo, eis que surge aí um grande problema, pois só havia uma réplica do Santo para as duas comunidades.

Ocorre que, por ocasião do dia de São João (24 de junho), a Comunidade São João Batista resolveu reviver a antiga festa que era organizada na comunidade de Igarapé dos Macacos e, que há anos estava esquecida. E, para tanto, solicitaram da matriarca da família a liberação da imagem do santo para a nova comunidade durante os festejos. Só que na mesma data, os líderes da comunidade Igarapé dos macacos resolvem também realizar uma programação em homenagem ao santo. O impasse estava criado. E há menos de uma semana ouviu-se rumores de que o santo não seria liberado para os festejos da Comunidade São João Batista.

Com tudo já organizado, não seria possível realizar uma festa sem a presença do santo homenageado. Foi uma grande revolta e desespero para a Comunidade São João Batista. Instalou-se um clima de guerra entre as duas comunidades. E, para aumentar ainda mais a confusão, eis que o santo desaparece de seu altar. Será que por vergonha da confusão arranjada pelos seus fiéis? O fato é que para a Comunidade São João Batista não havia dúvidas de que aquele sumiço seria uma armação da outra comunidade para não deixar o santo sair da comunidade.

Diversas estratégias foram planejadas pela Comunidade São João Batista para resgatar o santo. Inclusive com busca no mato, pelos arredores da comunidade. Agentes secretos foram infiltrados na própria comunidade para investigar o possível paradeiro do santo, mas nada teve resultado positivo. Até que, no último caso, a Comunidade São João Batista apelou a uma empresária da região que, num ato de solidariedade, resolveu doar a imagem do santo à comunidade. O fato é que, por providencias divinas ou não, cada comunidade realizou sua festa com o seu santo. O santo sumido reapareceu e até hoje continua na Comunidade de Igarapé dos Macacos. Dias depois soube-se que o santo estava o tempo todo escondido embaixo da cama de um dos líderes daquela comunidade. Por esse fato, este senhor ficou conhecido na região como o famoso “Esconde Santo”.

Apesar da grande confusão instalada na época, acusações, ofensas e outras intrigas... Hoje as duas comunidades vivem em paz, celebrando, cada qual com seu santo, suas convicções religiosas. Como tem que ser!
Comunidade São João Batista - Arquipélago do Bailique

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Imagens do Amapá: Carmo do Macacoari

Paisagem campestre às margens do Rio Macacoari - Município de Itaubal





Meios de transporte marítimo utilizado pela população do Carmo do Macacoari



Vista parcial do Rio Macacoari com sua paisagem ribeirinha
Casas em estilo palafita às margens do Rio Macacoari
Passeio em família no Rio Macacoari com rabeta
O ribeirinho e sua montaria - uma parceria de sucesso
Vista Parcial da Vila do Carmo do Macacoari
Prédios modernos também fazem parte da arquitetura local
Hipódromo onde ocorrem as corridas de cavalo durante os festejos de são Sebastião
Vista da rua principal da vila do Carmo
Paisagem típica da região ao longo da estrada e ramais do Carmo
Bacabeira - palmeira bastante comum na região
Paisagem de terra firme também presente na vegetação do Carmo
Estrada de terra construída em meio a floresta
Campo alagado - rico ecossistema no período de inverno
Criação de bubalino também faz parte da pecuária local
A criação de búfalos contrasta com a paisagem natural
Paisagem lacustre  no Carmo do Macacoari
A região dos lagos é riquíssima em variadas espécies de peixes
Criação de cavalos ajuda a população no transporte de pessoas e mercadorias

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

ÁGUA SALGADA INVADE O BAILIQUE

Vila Progresso - Principal comunidade do Arquipélago do Bailique

Assoreamento dos rios do Bailique
Depois de um cansativo dia de trabalho, seu Manoel chega em casa, e com muita fome, vai logo pegando a tigela para fazer o pirão de açaí para comer com camarão. Para sua surpresa na sua primeira colherada sente algo estranho. Indignado pergunta à esposa se esta havia colocado sal no açaí. Depois de algumas horas, seu Manoel percebe que não se tratara do desleixo de sua esposa. O açaí estava salubre devido a água usada para o seu preparo. E com o mesmo gosto estava a água de beber e tudo o que dela havia sido feito. Desesperado seu Manoel foi até o rio, provou da água e confirmou sua suspeita... Bem que este trecho poderia ter sido extraído de um romance de ficção ou de alguma história ocorrida na Vila do Sucurijú, no município de Amapá. Mas, trata-se de um fato real que está ocorrendo no Arquipélago do Bailique.
 
O Arquipélago do Bailique, distante cerca de 150 km da capital amapaense é formado por sete ilhas e possui aproximadamente 7.000 habitantes, distribuídos nas diversas comunidades ribeirinhas que compõem o distrito macapaense. Localizado na foz do Rio Amazonas, o arquipélago está de frente para o Oceano Atlântico. Apesar dessa proximidade com o oceano, a invasão das águas salgadas deixou de ser um problema para a população bailiquiense há mais de meio século. Com o tempo, as ilhas cresceram e a costa bailiquiense juntamente com a força do Rio Amazonas empurraram as correntes oceânicas para bem distante do Bailique.

Muro construído para proteger a comunidade das caídas 
Mas, o oceano sentindo-se expulso do paraíso preparou sua revanche de forma triunfal. Armou uma estratégia que nem o mais esperto inimigo pudesse suspeitar. Sentindo-se impotente para atacar de frente, o Oceano Atlântico se alia ao Rio Araguari e dispara suas águas no interior do arquipélago. Com a potência de uma bomba, a água salgada do oceano está expulsando a água doce do Rio Amazonas e invadindo o arquipélago, num movimento que vai do centro para as costas do arquipélago.
 
Como bem sabemos, o Rio Araguari deságua no Oceano Atlântico. E através de sua foz, recebe água oceânica que invade boa parte do rio. O choque da água oceânica com a água do Rio Araguari está fazendo com que a água salgada seja desviada por canais até os rios do Bailique. Há forte suspeitas de que a criação de bubalino na região do Araguari esteja relacionada com o surgimento desses canais que estão interligando o Rio Araguari com a região do Bailique. E há quem diga ainda, que a construção da hidrelétrica no leito do Rio Araguari, próximo ao município de Ferreira Gomes, esteja interrompendo o fluxo normal do rio e desviando seu curso para os canais que deságuam no Bailique.


Vegetação litorânea sendo arrastada pela correnteza das marés
Apesar de serem suposições empíricas, tais hipóteses podem ter algum fundamento científico. De uma forma ou de outra, o fato é que as águas salgadas estão invadindo o arquipélago e trazendo sérias preocupações para a população daquela região. A força da água vinda do Rio Araguari é tamanha que está provocando uma grande caída de terras e levando para a água dezenas de casas e até comunidades inteiras. Se por um lado provoca a caída de terras, por outro, provoca o assoreamento de outros rios, principalmente dos canais por onde poderiam passar as águas doces do Rio Amazonas.

Outro problema que poderá trazer sérias consequências  está relacionado ao  ecossistema. Já foram identificadas algumas espécies específicas da região do Araguari dentro do arquipélago bailiquiense, provando que a invasão das águas salgadas poderá provocar um grande desequilíbrio ecológico na região. Podem surgir novas espécies como também pode provocar o desaparecimento e até a extinção de outras.
 
Até agora não se tem uma real dimensão do problema. O que sabemos é que os comércios locais estão sendo abastecidos de água mineral, cena típica de oportunismo diante uma situação catastrófica. Oremos para que não seja o caso.

Caída de terras provocada pela corrente das marés
 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

AS DORES DO MUNDO

Em 2008, quando eu e vários professores do Brasil estávamos em um hotel de Brasília para receber nossos prêmios de Professores do Brasil, uma conferencista nos falava que ela iria torcer para que aquele prêmio não nos tapasse os olhos para os problemas da educação brasileira e que aquela festa não teria muito sentido se não viesse acompanhada de uma reflexão profunda sobre o momento porque passava a nossa profissão no país. Muitos colegas ficaram chateados, pois entendiam que ninguém tinha o direito de "estragar" aquele momento. Na verdade, ela é que estava certa: até hoje temos muito pouco a comemorar quando se trata de educação neste país. E nenhum prêmio, qualquer que seja a sua importância, pode mascarar a dura e triste realidade de quem está diariamente exercendo esta tão importante e desvalorizada profissão em sala de aula.
Mas foi preciso um choque de realidade para entender a mensagem. Na volta para casa e para a sala de aula, depois de alguns dias, ouvi um gemido de um aluno que, isolado e triste num canto da sala sussurrava baixinho sua grande dor. Cheguei ao seu lado e perguntei-lhe o que estava acontecendo, mas o garoto se esquivou em me responder, porém seu irmão que estava do lado contou que era o pé dele que estava ferido. Pedi então que retirasse o sapato para que eu pudesse olhar o ferimento. Mas, novamente, o menino recusou-se a me mostrar. Disse-me que não era nada e que estava tudo bem. Sabendo que aquele aluno estava me escondendo algo, peguei suas pernas e comecei a desamarrar os calçados. Foi então que me deparei com o estado preocupante daquele menino. Dentro daqueles velhos e empoeirados sapatos de borracha, surgiram seus pés praticamente em carne viva. Seus ferimentos eram tão fortes que algumas partes já estavam apodrecendo. Sem condições e sem material na escola para cuidar daquele ferimento, pedi à direção da escola para levar o aluno até sua casa. Mas foi aí que veio a parte mais triste dessa história. O menino se recusava a todo custo a ir para sua casa, dizia para esperar mais um pouco. E eu não entendia como aquele menino, sofrendo com aquela dor, insistia em ficar ali na escola. Passado algum tempo, ele veio até mim e perguntou se a merenda ainda ia demorar. Aí então comecei a entender o que estava acontecendo. Corri até a cozinha, mas as merendeiras me disseram que naquele dia não ia haver lanche porque a merenda da escola havia acabado. Peguei aquele garoto pelos braços e levei-o até sua casa. No caminho, parei em uma panificadora e paguei-lhe um lanche. Olhando aquele menino devorar aquela merenda, mil coisas me passavam pela cabeça e então percebi o quanto somos cegos para as realidades deste mundo. E que, enquanto professores, ignoramos ou não percebemos muita coisa à nossa volta.
Naquele dia, somente naquele dia, já no final do ano, é que foi descobrir que eu tinha dois alunos que moravam com sua mãe em um barraco pequenino em outro bairro da cidade. E que estes mesmos meninos levavam quase duas horas, à pé, para chegar à escola. E, muitas vezes, suas únicas refeições era a merenda servida no colégio. E que, aquela ferida nos pés daquele garoto era muito mais do que calos. Era a luta de uma criança tentando sobreviver, querendo um lugar ao sol, carregando nas costas um fardo tão pesado, sem ter o direito de sentir dor. Uma dor que não é dele. Uma dor que ele não tinha culpa de sentir. Esquecido das políticas públicas desse país, mas presente nas estatísticas de repetência e evasão escolar, que os nossos gestores insistem em esconder.

 



sexta-feira, 17 de agosto de 2012

PRETA, PRETINHA...


 Por P. R. Barbosa


Cinco horas da matina é o horário em que muitas famílias acordam no Bailique, um arquipélago distante 150 km da capital Macapá, Estado do Amapá. E sob a cantoria incessante dos galos anunciando um novo dia, é hora de levantar da rede, fazer o “moca” e se preparar para uma nova jornada de trabalho. Mas, na casa de Fabrício e Dinelma, a rotina não é bem esta. Acordam também às cinco da manhã, mas não é por conta do relógio biológico e da algazarra dos galos, mas por causa do choro e das batidas na porta do quarto. É preciso levantar, abrir a porta e dividir a cama com Pretinha até o amanhecer, pois do contrário ninguém amanhece deitado naquela casa.
E aos primeiros passos de seus “pais”, lá está ela de pé já choramingando pelo seu iogurte, maçã, pera ou banana fresca. É o seu café da manhã predileto! Saciada e com tanta energia para gastar, ninguém mais segura ou controla a danada dentro de casa. Depois de rodopiar a casa inteira, de cima a baixo, entrar nas gavetas dos armários, subir no telhado, Pretinha parte para o quintal para escalar as árvores e brincar com os insetos e pequenos animais. E sempre que sente fome, lá está ela novamente aos pés de sua “mãe” choramingando por comida.
Quem vê Pretinha assim, cheia de energia e vida, não imagina o que ela já enfrentou para sobreviver. Pretinha foi encontrada abandonada no meio da floresta, ainda recém-nascida. Provavelmente, seus pais tenham sido vítimas de algum caçador, pois do contrário, não imaginamos uma mãe abandonar seu filhote tão indefeso à sorte da floresta. Foi a sorte e o choro desesperado que fizeram Pretinha ser encontrada por um agricultor que o levou para sua casa. Pequenina, magrinha, toda molhadinha e tremendo de frio. Seu estado requeria cuidados especiais. Sabendo disso, aquele agricultor confiou ao casal Fabrício e Dinelma a responsabilidade pela guarda e pelo cuidado daquele ser tão indefeso.
A partir de então, Pretinha começou a fazer parte da família daquele jovem casal que, sem filhos, dedicou todo amor e cuidado àquele ser adotivo. Ganhou um nome, uma rede, uma mamadeira e o mais importante, uma família. Enfrentou vários problemas de saúde, mas sempre resistiu com bravura. Quando bebê gostava de passear enrolada ao corpo de seus “pais” e das crianças da comunidade. Seu colo preferido era o pescoço das pessoas. Era assim que Pretinha passava várias horas do dia presa à sua “mãe”. Mesmo quando Dinelma estava ocupada com seus afazeres domésticos, Pretinha estava sempre junto, presa ao seu colo, obervando tudo.
Mas Pretinha cresceu e está entrando na adolescência. E, como ocorre com os seres humanos, ela também tem seus momentos de “aborrecência”. Está sempre aprontando alguma coisa. E quando é chamada a atenção, fica emburrada. Quer ter a sua liberdade! Outro dia dormiu fora de casa. Apareceu no amanhecer do dia, sabe-se lá de onde. O fato é que ela apareceu assustada e com uma grande ressaca de sono. Talvez ela tenha aprendido a lição e não volte mais a fazer algo parecido. Está aprendendo a cantar. Toda vez que Fabrício põe seu hino favorito, ela esboça seus primeiros versos.
Apesar de algumas mudanças terem ocorridas na vida de Pretinha, ela ainda mantém algumas rotinas de seu tempo de bebê. Sua soneca depois do almoço, por exemplo, é sagrada. Mas antes, tem que arrumar a sua cama e fazer cafuné ou cócegas em suas patas até a bichinha adormecer abraçada ao seu boneco de pelúcia.
Esta é a história de Pretinha, um filhote de macaco guariba. Mas poderia ser a história de qualquer criança, já que Fabrício e Dinelma a tratam como filha. Apesar do amor com que criam aquele animal, o casal está preocupado com o seu futuro. Mesmo que lhes custe muito pensar numa possível separação, eles estão procurando um novo lar para a guariba. A danada está desobediente e tem tentado escalar os postes de energia elétrica da comunidade. E temendo um acidente que pode lhe custar a vida, Fabrício e Dinelma estão pensando em doar o animal para alguma instituição ou alguém que possa dela cuidar com a mesma dedicação e carinho, já que Pretinha não sobreviveria, caso fosse devolvida à floresta.
 

quinta-feira, 28 de junho de 2012

TRADIÇÃO X MODERNIDADE


Como as festas tradicionais do interior sobrevivem aos novos tempos
 
 
Por P.R. Barbosa

Houve um tempo em que as festas no Arquipélago do Bailique aconteciam de ano em ano. Eram as famosas festas de ano que, de tão populares, faziam parte do calendário festivo daquele povo. Era também um momento único de rever os amigos, familiares distantes ou, simplesmente, “arrastar o pé”. O fato é que as festas tradicionais, em sua maioria religiosa e feitas para homenagear os santos padroeiros, eram eventos únicos de socialização naquela região tão isolada.
Realizada quase sempre em residências, a organização contava com o apoio de toda a comunidade. Passavam-se dias ou até semanas festejando. Seu Miguel Pacheco (86), que vivenciou o início de muitas festas tradicionais no arquipélago, nos relata que as pessoas amanheciam e anoiteciam dançando. Famílias inteiras se mudavam para os locais da festa. Existia, inclusive, a preocupação da organização em disponibilizar um espaço próximo ao salão para que fossem amarradas as redes, onde as crianças pudessem dormir. Assim, era cômodo para as mães divertirem-se e cuidarem de suas "crias" ao mesmo tempo. Seu Miguel conta que muitas famílias traziam, além das vestimentas novas para estrear na festa, mantimentos para o sustento, já que muitas festas não ofereciam comida para os convidados durante todos os dias do festejo.
Nos primeiros tempos, as noites festivas eram iluminadas por lamparinas à querosene, depois foi a vez dos lampiões a gás, geradores, e atualmente muitas festas já contam com energia elétrica pública da usina termoelétrica da região.
As músicas, com temas bastante caboclos, eram cantadas ao vivo com acompanhamento de clarinetes. Os músicos não eram profissionais e dificilmente sabiam as notas das melodias, mas ninguém reclamava. Emocionado, Seu Miguel chegou a entoar alguns versos que, apesar da idade, permanecem vivos em sua memória. Depois chegaram as vitrolas à bateria e os discos de vinis. O repertório então começou a diversificar-se, até a entrada em cena das aparelhagens de som. Até hoje, apesar de muitas festas já apresentarem atrações ao vivo, com bandas ou cantores solos, muitas ainda continuam sendo tocadas apenas por som mecânico. Só que a música, esta passou de ritmo caboclo para a febre do tecno-melody, funk, rock e outros tantos ritmos da atualidade.
Ano passado, estivemos acompanhando a realização da Festividade de São João Batista, que há mais de meio século vem sendo organizada pela Família Barbosa na comunidade de Igarapé dos Macacos do Bailique. A festa foi realizada nos dias 24, 25 e 26 de junho e contou com a participação de centenas de brincantes. Entre as atrações, pudemos conferir a alvorada de fogos anunciando o início da festividade, a levantação do mastro com a bandeira do santo que simboliza a abertura oficial do evento, a festa dançante, o leilão com donativos ofertados pela comunidade, bingo, culto religioso e derrubada do mastro marcando o final do evento.
Os organizadores da festa nos relataram que, devido ao grande contingente que a festa começou a receber nos últimos anos, foi preciso construir um centro comunitário com recursos e mão-de-obra da própria comunidade. Apesar da grande dimensão do espaço, o centro ficou pequeno para tantas pessoas que ali compareceram nos três dias de festa.
Fazendo uma relação dos relatos do Seu Miguel Pacheco sobre as primeiras festas com o que presenciamos na última edição da Festividade de São João Batista, ficou evidente a grande influência que estas festas tradicionais receberam e continuam recebendo da modernização da sociedade. 
Entre tantas diferenças, pudemos observar o pouco espaço destinado às atividades profanas e culturais na programação. A ausência das famílias no ambiente da festa também foi algo marcante. E também o tempo de duração das noites festivas que não se prolongavam até o amanhecer, como ocorria antigamente. Segundo os coordenadores, até dois anos atrás a festa não tinha tempo para parar e chegava até o raiar do dia, só que no ano passado casos lamentáveis de violência ocorreram durante a festividade o que levou os organizadores a cumprirem fielmente as determinações legais para poderem contar com o trabalho dos policiais e oferecerem segurança aos seus brincantes. Desde então, as noites festivas encerram-se sempre às 03 h da manhã. Os coordenadores informaram que devido aos casos de violência, as famílias estão se afastando das festas tradicionais. E isso foi verificado ano passado quando o quantitativo de brincantes foi muito inferior aos outros anos, conforme avaliação da coordenação.
Hoje o principal público participante das festas tradicionais é jovem que, em sua maioria, não liga para a tradição. Com o exagerado consumo de álcool e outras drogas, a violência urbana está migrando da cidade para os interiores e chegando às festas tradicionais. As festas que antes serviam para unir as pessoas, hoje estão sendo usadas como ponto de encontro de desafetos. As roupas novas que eram o trunfo para o glamour e para a conquista de seus pares já não impressionam mais, principalmente, quando o que conta é o uso da força e da arma. E a tradição cultural, que representa as raízes históricas de um povo, está cedendo lugar para uma simples balada.
 Este ano, a Festividade de São João Batista não foi realizada em função do falecimento recente de um dos ancestrais daquela comunidade e personagem desta matéria, o Sr. Miguel Dias Pacheco, cujo texto é dedicado à sua memória.