segunda-feira, 15 de outubro de 2012

AS DORES DO MUNDO

Em 2008, quando eu e vários professores do Brasil estávamos em um hotel de Brasília para receber nossos prêmios de Professores do Brasil, uma conferencista nos falava que ela iria torcer para que aquele prêmio não nos tapasse os olhos para os problemas da educação brasileira e que aquela festa não teria muito sentido se não viesse acompanhada de uma reflexão profunda sobre o momento porque passava a nossa profissão no país. Muitos colegas ficaram chateados, pois entendiam que ninguém tinha o direito de "estragar" aquele momento. Na verdade, ela é que estava certa: até hoje temos muito pouco a comemorar quando se trata de educação neste país. E nenhum prêmio, qualquer que seja a sua importância, pode mascarar a dura e triste realidade de quem está diariamente exercendo esta tão importante e desvalorizada profissão em sala de aula.
Mas foi preciso um choque de realidade para entender a mensagem. Na volta para casa e para a sala de aula, depois de alguns dias, ouvi um gemido de um aluno que, isolado e triste num canto da sala sussurrava baixinho sua grande dor. Cheguei ao seu lado e perguntei-lhe o que estava acontecendo, mas o garoto se esquivou em me responder, porém seu irmão que estava do lado contou que era o pé dele que estava ferido. Pedi então que retirasse o sapato para que eu pudesse olhar o ferimento. Mas, novamente, o menino recusou-se a me mostrar. Disse-me que não era nada e que estava tudo bem. Sabendo que aquele aluno estava me escondendo algo, peguei suas pernas e comecei a desamarrar os calçados. Foi então que me deparei com o estado preocupante daquele menino. Dentro daqueles velhos e empoeirados sapatos de borracha, surgiram seus pés praticamente em carne viva. Seus ferimentos eram tão fortes que algumas partes já estavam apodrecendo. Sem condições e sem material na escola para cuidar daquele ferimento, pedi à direção da escola para levar o aluno até sua casa. Mas foi aí que veio a parte mais triste dessa história. O menino se recusava a todo custo a ir para sua casa, dizia para esperar mais um pouco. E eu não entendia como aquele menino, sofrendo com aquela dor, insistia em ficar ali na escola. Passado algum tempo, ele veio até mim e perguntou se a merenda ainda ia demorar. Aí então comecei a entender o que estava acontecendo. Corri até a cozinha, mas as merendeiras me disseram que naquele dia não ia haver lanche porque a merenda da escola havia acabado. Peguei aquele garoto pelos braços e levei-o até sua casa. No caminho, parei em uma panificadora e paguei-lhe um lanche. Olhando aquele menino devorar aquela merenda, mil coisas me passavam pela cabeça e então percebi o quanto somos cegos para as realidades deste mundo. E que, enquanto professores, ignoramos ou não percebemos muita coisa à nossa volta.
Naquele dia, somente naquele dia, já no final do ano, é que foi descobrir que eu tinha dois alunos que moravam com sua mãe em um barraco pequenino em outro bairro da cidade. E que estes mesmos meninos levavam quase duas horas, à pé, para chegar à escola. E, muitas vezes, suas únicas refeições era a merenda servida no colégio. E que, aquela ferida nos pés daquele garoto era muito mais do que calos. Era a luta de uma criança tentando sobreviver, querendo um lugar ao sol, carregando nas costas um fardo tão pesado, sem ter o direito de sentir dor. Uma dor que não é dele. Uma dor que ele não tinha culpa de sentir. Esquecido das políticas públicas desse país, mas presente nas estatísticas de repetência e evasão escolar, que os nossos gestores insistem em esconder.

 



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